Jennifer | Cap. 3 - Escolha Livre


Atender a ligação de Jennifer para Demétrio não era fácil. Ele queria que tudo fosse como antes. Talvez estivesse preso ao passado. Não queria crescer, não queria amadurecer. As brincadeiras de outrora não tinham mais sentido. Sim, as pessoas mudam. O telefone tocou, tocou e tocou. Demétrio evitou atender as duas primeiras ligações. Na terceira, tomou coragem e disse:

- Alô.
- Alô, Demétrio?
- Sim, sou eu.
- Tudo bem?
- Bom, eu queria dizer que sim, mas não está. Você não é mais a mesma. O que aconteceu com você?
- Eu poderia explicar, mas você não me deixou naquela hora. Bom, mas não é isso que quero falar com você. Sabe o panfleto que eu te dei? Gostaria que você me encontrasse, hoje à noite, no endereço que tem nele. O que você acha? Assim, nós poderíamos conversar e, sobretudo, você poderia experimentar o que experimentei.
- Hoje? Não sei. Não gosto de sair de casa na sexta-feira de noite. Tem uma série muito massa que eu acompanho.
- Eu bem sei. Eu também gosto de Flash. Mas nós precisamos conversar realmente. Você é uma pessoa muito importante para mim, não gostaria de perder sua amizade.  

Demétrio sabia que tinha pegado pesado com Jennifer. Ele não queria admitir, mas dentro de si uma voz dizia que precisa pedir desculpas. Movido por esse desejo interior, ele resolveu aceitar o convite.

- Está bem. Eu te encontro lá daqui a pouco.

Jennifer chegou mais cedo. Encontrou um lugar em que eles pudessem conversar. O local era parecido com o que Jennifer tinha feito o Seminário de Vida. Por coincidência, naquela noite haveria um encontro com louvor, oração e palestra para jovens. Depois que Jennifer preparou o espaço, Demétrio chegou meio acanhado. Ela o abraçou e sorriu para ele. Demétrio estava constrangido visivelmente. Antes que ela disse algo, ele começou.

- Jennifer, eu aceitei vir porque acho que peguei pesado com você. Falei coisas que você não deveria escutar. Queria te pedir desculpas.
- Você acha que pegou pesado? Tem razão. Pegou pesado mesmo. Aceito suas desculpas. Mas quero explicar para você um pouco do que vivi durante o tempo em que estivemos distantes não só fisicamente, mas também como amigos.

Jennifer contou como recebeu o convite para participar do Seminário de Vida. Contou da alegria de ter um grupo de oração. Falou daquilo que hoje ela estava vivendo (Santa Missa, terço, confissão, oração pessoal etc.). Ela não teve receio de reconhecer o que tinha feito no passado, mas ao falar destacava a condução de Deus. Demétrio escutava atento, ora incrédulo, ora maravilhado com as palavras firmes de sua amiga. Na medida em que ela ia falando, seu coração ia sendo reinflamado e as graças eram confirmadas e renovadas dentro de si. Jennifer partilhou toda sua vida para o amigo. Explicou que a panfletagem que estava fazendo na praça era em vista de um Seminário de Vida que iria acontecer no dia seguinte, no mesmo local onde estavam, e o motivou a participar. Demétrio, ainda resistente, não sabia o que responder para a amiga. Uma música começou a tocar.

- Demétrio, vai começar. Você quer participar do encontro que teremos hoje?

O jovem não sabia se ficava ou não. Tinha medos antecipados. Medo de ter que deixar de viver tudo o que dava prazer a ele. Diante da pergunta de Jennifer, Demétrio ficou calado e pensativo. Ela entendeu que seu amigo precisa fazer uma escolha livre. Não o pressionou. Demétrio, depois de ver os jovens animados, alegres, sorrindo, felizes, resolveu dar uma chance. Essa era brecha necessária para que ele pudesse experimentar a alegria que realmente não passa, permanecendo para sempre no coração de quem vive um encontro pessoal com Jesus Cristo Ressuscitado.

Muitas vezes o passado vem ao nosso encontro; outras vezes nós vamos ao encontro do passado. O passado se expressa por meio das pessoas que conhecemos, por meio das experiências que vivemos e também por meio das omissões. É preciso olhar para a nossa história não com desprezo ou mesmo indiferença, mas com esperança e, sobretudo, com misericórdia. Nossa história faz parte da nossa vida, nossa história é a nossa vida. O presente é fruto de escolhas do passado.